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São Paulo, 3 – A decisão do Banco Central de elevar compulsórios de depósitos a prazo e à vista, com impacto de R$ 61 bilhões na economia, equivale a um aumento da Selic de, pelo menos, 0,5 ponto porcentual, estimou o economista-chefe da LCA, Braulio Borges. Segundo ele, essa medida de aperto de liquidez não só descarta o aumento de juros na próxima semana, como tem boas chances de proporcionar ao BC tempo para não precisar elevar os juros em janeiro, na primeira reunião da instituição sob a presidência de Alexandre Tombini.

“Além disso, o BC também adotou um aperto nas condições de crédito de longo prazo, o que vai promover logo um aumento dos juros das prestações ao consumidor”, disse.

Para Borges, além das medidas “macroprudenciais” anunciadas hoje pelo presidente do BC, Henrique Meirelles, outro fator importante que sinalizará que o Copom não precisará elevar os juros em janeiro será a postura da política fiscal do governo da presidente eleita Dilma Rousseff. E o aumento do salário mínimo que passará a vigorar em janeiro é fundamental nesta questão, pois, segundo ele, esta remuneração piso da economia representa 43% dos gastos primários do governo central, dado que quase metade dos beneficiários do INSS recebem um salário mínimo.

“Se o mínimo for para R$ 540,00 isso representará um aumento real nulo. Caso o reajuste vá para R$ 550,00, tal número representará um ganho real de 1,5%, bem inferior à média de 6% apurada entre 2004 e 2010.” A ministra indicada do Planejamento, Miriam Belchior, disse nesta semana que o salário mínimo deve ir para R$ 540,00.

Segundo o economista-chefe da LCA, as medidas que restringem o crédito de longo prazo visam evitar o surgimento de bolhas de crédito no futuro e a ocorrência de uma forte onda de inadimplência para financiamentos ao consumidor. “No caso de quem compra um bem durável e precisa pagá-lo em 48 meses, a inadimplência nos primeiros 12 meses de pagamento de parcelas está perto de 1%, mas esse indicador sobe para perto de 10% no quarto ano”, relatou.

Para Borges, as medidas que o BC anunciou hoje visam, por um lado, continuar a aplicação de ações prudenciais que o G-20 discutiu na última reunião em Seul e que objetivam institucionalizar políticas econômicas anticíclicas, a fim de prevenir bolhas de ativos financeiros e evitar a súbita quebra de economias, extremamente alavancadas em instrumentos de crédito. Ou seja, o Brasil ratifica sua posição de ser um dos primeiros países a implementar medidas cautelosas para proteger a boa saúde de sua economia, sobretudo garantir no longo prazo a higidez do sistema financeiro.

Também o maior esforço de política monetária pelo BC na gestão de Meirelles, avalia Borges, diminui a necessidade de o governo Dilma Rousseff elevar os juros, o que é a última decisão que a presidente eleita desejaria adotar, dado que possui uma agenda administrativa clara: ajuste fiscal rigoroso, cumprimento do superávit primário na meta de 3,1% do PIB para 2011, aumento substancial da poupança do País, a fim de elevar os investimentos nacionais de 17,9% em 2010 para 23% em 2014, como ressalta o presidente do BNDES, Luciano Coutinho.

Dilma declarou em campanha que quer reduzir os juros reais da atual marca próxima a 5,8% para perto de 2% em quatro anos. E a redução dos juros no médio prazo é fundamental não só para elevar a Formação Bruta de Capital Fixo do País, que é muito baixa, mas também diminuir a atratividade do capital estrangeiro para fazer arbitragem e reduzir a valorização do câmbio. De acordo com a série temporal 11.753 do Banco Central, a taxa de câmbio real apresentava uma valorização de 31,46% em setembro deste ano em relação a junho de 1994, e subiu para 32,46% em outubro de 2010 na mesma base de comparação.